Tarantino me ensinou recentemente que você pode sentir o que de mais profundo conseguir e não saber lidar ou digerir ou superar tanto sentimento porque ele é tão maior que você que não dá para enxergar o todo, entender o todo e achar aquela ponta que você tem que pegar para soltar os nós. E mesmo sentindo tanto e vivendo em função dessa coisa amorfa e imensurável que não cabe dentro você pode nunca, nunca, ou apenas por um momento, num gesto tão sutil que nenhum dos que te cercam poderiam perceber, deixar que seja visto um milésimo do que está por trás de quem você é. Gente blasé faz arte.
E se parte da sua fragilidade sobressair, e se ela sobressair diante de quem também não sabe lidar com nenhuma parte de nenhuma fragilidade, você acaba caída sobre a própria poça de sangue manchando o vestido vintage vermelho com camadas sobrepostas que aumentam o seu pequeno quadril. É um jeito egoísta de morrer. De levar a beleza para o fundo da terra com você. Não fosse pelo sangue escurecendo o tecido e fazendo-o cheirar tão doce, o vestido poderia acabar pendurado em um brechó alemão. E você morreria velha e sem embasar seus medos. Você nunca teria a certeza de que sair da concha, ou desabrochar, ou chame como quiser, enfim, esse gesto tão budista de abrir e expandir, você nunca poderia afirmar com propriedade e empirismo que ele é letal.
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