A felicidade de abrir a caixa de entrada e ver piscar diante dos próprios olhinhos um e-mail da Luminosidade confirmando seu credenciamento e dizendo onde e quando retirar seu passaporte jornalístico da alegria é de fazer chorar. Você, jornalista que quer ser a Erika Palomino, está no SPFW! Você vai pendurar a sua credencial – que dessa vez é verde – no pescoço e aplaudir o Ronaldo Fraga, ver Dudu Bertholini dando close pelas rampas da Bienal até cansar e esbarrar no moleskine de jornalistas e blogueiros mais cereja do topo do bolo. Dependendo da sua moral no mundinho você também vai levar cotovelada na fila do standing, se rasgar por um computador da sala de imprensa e sentir pontadas na região abdominal porque tomou uma overdose de energético e só se alimenta daqueles amendoins coloridos e cheios de germes das mesinhas de centro há três dias.
Para você que não é ninguém na noite mas vai se internar no prédio da Bienal por uma semana para viver a realidade paralela do SPFW, e para você que se chama Mari Benjamim, eu tenho algumas dicas para durar até o fim da semana de moda.
Antes de chegar lá, a menos que você more em São Paulo, vai precisar arrumar as malas. Então não vá cagar a sua semana com 5 Jimmy Choos diferentes, um para cada dia, porque se você é pyna e tem sapatos lindos, deixe-os em casa. Bom, você vai precisar deles se tiver convites para as festinhas pós-desfile – mas se você está lendo isso agora é porque não tem.
O SPFW rola em um prédio que tem um hall enorme, geralmente com exposições, um estúdio da Oi FM, a sala de desfiles número 1 e um mezanino com uma lanchonete que chega a ser engraçada de tão cara. Um quiche custa uns doze reais, e isso não é brincadeira. Aí você sobe uma rampa e logo ali em cima tem mais alguma coisa cool dentro do tema da edição. Em janeiro eram teias de TVs exibindo pequenos filmes feitos com imagens “sorteadas” a partir de palavras-chave digitadas pelos visitantes. Bem por ali também tem um restaurante meu amór onde almoçam as pessoas igualmente meu amór. Em janeiro era uma pizzaria Piola – que, ok, não é o restaurante do Alex Atala, mas também não cabe na maioria dos Visa Vale do proletariado jornalístico. E também tem alguns lounges and the House of Palomino. Aí você sobe uma rampa e mais lounges, além de um telão com puffs para a galera sem convite sissintir dentro da sala de desfiles, e atrás desse telão tem as salas 2 e 3. Aí tem mais uma rampa e você chega ao seu reduto, a sala de imprensa. Ela pode estar solitária ali em cima ou pode dividir o andar com a sala 4, vai depender do estado de espírito da organização do evento.
A sala de imprensa tem computadores, bancadas para notebook, TVs que exibem os desfiles, sofás, amendoins, bananas, cafés e à noite passa o pessoal do energético e dos quitutes. São pessoas iluminadas. Elas sempre chegam quando seu estômago está nas costas. Ah, também tem umas edições da FFW Mag sobre chaise longsss (qual é o plural disso?), mas a gente fica com a impressão de que essa parte é só pra imprensa internacional.
Então você sentiu o drama, né? Levando em consideração que o babado começa na hora do almoço e vai até umas 23h, quem é que quer passar tanto tempo percorrendo todo esse espaço em tempo recorde e com graça e leveza invejáveis montada em um par de meia-patas flocados? Pare de ser entojada e calce logo esse All Star.
As roupas têm que ser bonitas, dignas, bafônicas, etc, etc, etc. Mas elas também têm que ser funcionais. Se coçar, incomodar, ficar subindo ou der cecília, não leve. E se só combinar com uma única singela peça de todo o seu guarda-roupa, mais um motivo para não levar. Você nunca sabe quando vai babar picles com mostarda na única calça que combina com aquela sua blusinha de lamê com ombrismos e se foder. Na edição passada eu afoguei minha sapatilha flocada na maior chuva que eu já vi na vida e tive que comprar um sapato às pressas. Comprei uma gladiadora preta na Anabella e a porra da sandália estragou no segundo dia de uso. NÃO INDICO A ANABELLA! E eu ainda mandei um e-mail reclamando e eles não tiveram nem a decência de me responder um “sinto muito, fodida”. Sem um puto de consideração!
Quanto às bolsas, pense em praticidade e agilidade. Se o seu gravador for tragado por um buraco negro o Amir Slama vai passar por você e nem confiança. Saque logo essa porra da bolsa, entreviste o homem e deixe-o ir. Ele tem mais o que fazer. Quer dizer, bolsas com bolsinhos externos são valiosas.
Organize a sua agenda. Os desfiles acontecem quase que um em cima do outro, e além deles tem os lounges e a disputa por um computador. Não queira abraçar o mundo porque não vai dar certo, escolha o que te parece mais relevante e se dedique a isso.
Não tem convites? Se jogue na fila do standing. Os primeiros desfiles do dia raramente lotam e a imprensa tem preferência na hora de preencher os lugares vazios. Algumas assessoras também oferecem convites na sala de imprensa, então cole em uma delas e passe um xaveco para ver se a moça te descola mais algum.
Chegue cedo nos backstages. Geralmente, a entrada é liberada por ordem de chegada dos jornalistas. Mas não chegue muito cedo. De que adianta fotografar a Daiane Conterato passando base? Isso todo mundo já sabe que ela usa. Ah, para agilizar, converse antes com a assessoria da marca. Eles não vão te dar um convite para o backstage ou estender um tapete vermelho quando você entrar, mas pelo menos você já chega lá procurando por alguém que sabe quem é você na noite.
Almoce no Verde. Tem um quilão lá fora chamado Green Whiskas Sachê. Não me lembro o nome, mas ele é muito mais barato que o restaurante que fica dentro do prédio e aquele outro dentro do MAM. É só sair da Bienal pela porta principal e ir sempre em frente.
Não se jogue no chão chorando. Você vai querer fazer isso, mas seja forte. Na edição passada a Cê Pontinhos (vocês sabem de quem eu estou falando) me tratou mal e eu ainda perdi a meia dúzia de bobagens que ela me disse porque o gravador não salva o áudio automaticamente. Na edição retrasada eu perdi o papel com o nome do entrevistado. Em uma outra edição que nem sei qual foi eu machuquei o pé e fui embora descalça. Merdas acontecem. Mas depois tudo melhora. Mari, se a sua vida ficar uma bosta, me liga.
Entreviste a Julia Petit. Ela é a pessoa mais linda e doce do universo. Eu e a Érica nos apaixonamos perdidamente pela Xúlia. A Érica também é de sagitário e sagitarianas e cancerianas se amam ou se odeiam, não há meio termo. E a Jú a gente ama até o fim da vida.
Não tenha medo de parecer pobre, vá atrás dos brindes. Finamente, é claro. Porque quando você volta pra casa todo mundo pergunta “trouxe alguma coisa pra miiiim?”, e o lápis do SPFW custa três reais.
Por fim, se divirta trabalhando. Para quem não conhece ninguém, tem muita gente ótima e supersociável na sala de imprensa – nem todo mundo que trabalha com moda tem cara de nojinho. E para quem já tem amigos, o lounge da TAM sempre tem festinhas e o Ibirapuera tá lá, lindo e ensolarado, te esperando para dar um perdido no chefe. Brincadeira, gente, eu nunca fiz isso.